Para tentar compreender a Igreja Universal

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Instituição fundada por Edir Macedo completa quarenta anos, crescendo e se renovando. Pesquisador avalia: se quiser enfrentar culto ao empreendedorismo, esquerda precisará rever seus métodos

Por Carlos Gutierrez, em entrevista à IHU

O sucesso da Igreja Universal do Reino de Deus – IURD desde a sua fundação no Brasil, há 40 anos, pode ser explicado por uma série de fatores, como o aparato midiático, sua penetração nas periferias e sua adaptabilidade, diz o sociólogo Carlos Gutierrez à IHU On-Line. Entretanto, pontua, a Igreja também “conseguiu tirar proveito” da era da religiosidade e do “personal God” e “oferecer uma série de bens simbólicos e cultos que atendem às demandas de indivíduos cada vez mais plurais”. Além disso, pontua, “há alguns anos a Universal vem se caracterizando pela incorporação de referenciais externos à religião como, por exemplo, linguagem de autoajuda, noções de empreendedorismo, enfim, todo um viés mais psicologizante”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Gutierrez faz uma retrospectiva sobre a trajetória da IURD no país, lembra seu ingresso na cena política, na elaboração da Assembleia Constituinte, e reflete sobre como as mudanças em curso no país, especialmente na visão de mundo da classe trabalhadora, têm relações com os ensinamentos da Igreja. “Para uma boa parte da população, a desigualdade social é percebida no trabalho assalariado e a ascensão é pautada no empreendedorismo. Aquele agente social ao avaliar sua vida e projetar um futuro como empreendedor considera esse plano como o único possível para obter uma melhoria imediata e significativa em sua vida. É pragmático”, afirma.

Na avaliação de Gutierrez, ao longo das últimas décadas a IURD também se fortaleceu politicamente a ponto de hoje não ser possível governar sem o apoio da Bancada Evangélica. Apesar disso, frisa, o futuro não só da Universal, mas das igrejas neopentecostais na política é incerto, já que o “ministro Gilmar Mendes afirmou estar preocupado com o uso da estrutura das igrejas para influenciar eleições, assim como de possível abuso de poder econômico”. Segundo o sociólogo, “o ministro afirmou em entrevista que os membros do Supremo estão discutindo a questão para criar normas para essa relação. Logo, caso essa medida seja aprovada, assim como uma reforma política que estabeleça voto em lista fechada, a bancada evangélica vai sofrer um golpe muito forte, uma vez que a Câmara seria dominada por cerca de quatro ou cinco grandes partidos”.

Gutierrez também comenta as especulações em torno da instalação de uma nova sede da Universal no metro quadrado mais caro do país, no bairro Leblon, no Rio de Janeiro. “Não é possível afirmar categoricamente qual a motivação que orienta essa ação, mas o fato de problematizar a questão de classe e afirmar que todos podem buscar Deus, mesmo os de melhor condição financeira, parece-me uma tentativa de mudar sua imagem ante pessoas de maior renda e mais escolarizadas”, afirma.

Carlos Gutierrez é mestre em Antropologia Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – USP e doutor em Antropologia Social no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – IFCH, da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Foi pesquisador do Cebrap no projeto “Religião, Direito e Secularismo. A reconfiguração do repertório cívico no Brasil contemporâneo”. Atualmente é pesquisador associado do SocioFilo, Laboratório de Teoria Social do Instituto de Estudos Sociais e Políticos – IESP, da UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Confira a entrevista.

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IHU On-Line – Qual foi a trajetória da Igreja Universal no Brasil ao longo desses 40 anos? Como explica a presença e o sucesso da Igreja no país?

Carlos Gutierrez – A Igreja Universal surgiu no Rio de Janeiro, fundada por Edir Macedo. Aos poucos, começou a expandir-se pela cidade e aproveitando a crise dos anos 80, começou a comprar teatros e cinemas vazios e transformá-los em templos. A Igreja começou a realizar grandes campanhas no Maracanã, a fim de levantar dinheiro para comprar estações de rádio e também a TV Record. Nessa época, o crescimento e os pedidos de dízimo, considerados agressivos, chamaram a atenção da mídia que realizou inúmeras reportagens sobre supostos abusos da instituição com relação à exploração da fé das classes populares e também a relação tensa com as religiões afro-brasileiras. A partir daí a Igreja passou a crescer e a se espalhar pelas capitais e no interior, começando a construir grandes templos nas principais cidades brasileiras. Os anos 90 continuaram conturbados para a Igreja, com a prisão de Edir Macedo e o caso do chute na santa, em que um bispo da IURD tocou uma imagem de Nossa Senhora com os pés, afirmando que se tratava de um boneco. A Igreja recebeu inúmeras críticas e o Jornal Nacional da TV Globo veiculou também imagens de Edir Macedo ensinando pastores a pedir ofertas. Apesar das inúmeras controvérsias em que esteve envolvida e das críticas recebidas, a Igreja Universal constituiu-se como uma das maiores instituições evangélicas do país, a quarta, segundo informações do último Censo.

Acredito que esse sucesso pode ser explicado por algumas razões: aparato midiático que ajudou a consagrar o televangelismo da Igreja Universal; sua penetração nas periferias das grandes metrópoles e, principalmente, sua adaptabilidade. Há alguns anos a Universal vem se caracterizando pela incorporação de referenciais externos à religião como, por exemplo, linguagem de autoajuda, noções de empreendedorismo, enfim, todo um viés mais psicologizante.

Diversos autores que pensaram a modernidade, tal como Beck e Giddens, percebem que o processo de individualização destradicionaliza as classes sociais. O que isto quer dizer? O indivíduo torna-se protagonista de sua própria trajetória e responsável pela narrativa de sua vida. A Universal é uma instituição que entendeu essa questão chave do personalismo na modernidade. Há diversos cultos, para empreendedores, mulheres, homens, pessoas com problemas de saúde, com vícios, enfim, ela consegue apresentar algo para cada público e nisso abarca muita gente, justamente ao se pluralizar.

Não que isso seja uma exclusividade da IURD, pois se trata também de algo presente em outras instituições. Beck afirma que a secularização não promove o fim da religião, mas sim sua transformação. Uma vez libertos de uma imposição religiosa, as pessoas passam a construir reflexivamente sua relação com a religiosidade, ou seja, cada um cria o seu “personal God”, a sua relação particular com a religião. A Universal conseguiu tirar proveito disso ao oferecer uma série de bens simbólicos e cultos que atendem às demandas de indivíduos cada vez mais plurais. Esses evangélicos são expostos a inúmeros processos de socialização e, por isso, as próprias igrejas vêm também incorporando uma série de referenciais e saberes de outros universos a priori não religiosos.

Qual tem sido a mensagem da Universal aos seus fiéis e aos moradores das periferias?

Muitas pesquisas, como a de Jessé de Souza, por exemplo, têm indicado um forte trabalho motivacional das igrejas evangélicas com relação aos moradores de periferias. Em minha tese de doutorado também encontrei uma situação semelhante: a presença de uma forte mensagem de incentivo psicológico para o indivíduo acreditar em si mesmo e passar a se ver como um sujeito de direitos.

A Universal tem, por exemplo, a campanha da Revolta em que os fiéis são incentivados a não mais aceitar as condições humilhantes de suas vidas. Nisso, incentivam toda uma reflexão com relação ao cotidiano e também a construção de projetos de vida que rompam com esse contexto e permitam ter uma vida digna. A grande mensagem às classes populares é: você é filho de Deus e, por isso, tem algo maior reservado para você. Diversos fiéis relatam como se sentiam inferiorizados e humilhados e desenvolveram sua autoconfiança por meio da religiosidade.

Nesse sentido, a transformação da vida não passa apenas pela questão da renda, mas também da construção de uma reflexão interna que permita ao indivíduo expressar uma identidade com a qual se identifica, no caso, principalmente, o empreendedor autônomo, feliz e realizado em sua vida pessoal e profissional.

Alguns avaliam que a Universal quer alcançar a classe média alta e essa é uma das razões pelas quais ela instalou uma nova sede no Leblon. Concorda com esse tipo de análise? O que motivou a Universal a ter uma sede no Leblon?

Acredito que todas as instituições visem alcançar todos os públicos. Tradicionalmente, a Universal construiu seus principais templos em locais de grande acesso e movimentação de pessoas. Tanto que a nova igreja no Leblon fica próxima a uma estação de metrô. Em São Paulo, a Universal construiu um templo no bairro Vila Mariana, também de classe média-alta. No Rio, a Igreja também possui uma sede no bairro do Flamengo, também de classe média-alta.

Agora, precisamos também definir a noção de classe. Como bem aponta Pierre Bourdieu, não se trata apenas de uma questão de renda, isto é, puramente capital econômico, mas um conjunto de capitais (econômico, social e cultural). A classe média-alta estabelecida caracteriza-se pela possessão de títulos universitários, domínio de línguas estrangeiras etc. Indivíduos desse contexto social dificilmente vão a uma igreja neopentecostal. Porém, há gente no Leblon e na Vila Mariana que, apesar de ter uma renda compatível à realidade desses bairros, apresenta uma outra trajetória social, sem o acesso às grandes instituições de ensino, mas que por conta de diversos fatores (mobilidade social, compra de um imóvel em outro momento do mercado imobiliário) hoje ocupam o mesmo espaço.

De todo modo, o Pastor Souza Melo, responsável pela nova unidade, afirmou que o espaço foi criado para ajudar as pessoas que sofrem naquele bairro, independentemente de sua condição financeira. Segundo ele, os problemas ali enfrentados não giram em torno de questões de dinheiro, mas sim de depressão, vazio e solidão. Na reportagem realizada pelo portal da IURD, o texto cita a questão do preconceito e traz depoimentos de duas pessoas de classe média-alta que afirmam que passaram por cima disso e decidiram buscar Deus. Logo, a Igreja entende que existe um preconceito de classe com relação a ela e que a busca da fé evangélica não pode ser entendida como algo exclusivo dos mais pobres, uma vez que existem, em sua visão, múltiplas motivações que levam o homem a buscar contato com Deus. Não é possível afirmar categoricamente qual a motivação que orienta essa ação, mas o fato de problematizar a questão de classe e afirmar que todos podem buscar Deus, mesmo os de melhor condição financeira, parece-me uma tentativa de mudar sua imagem ante pessoas de maior renda e mais escolarizadas.

Quando, como e por que a Universal começou a participar da cena política? Qual é a influência não só da Igreja, mas dos evangélicos de modo geral, na política brasileira?

A Universal estreia na cena política com a eleição de um deputado para a Assembleia Constituinte. Naquele momento, os evangélicos entendiam ser importante participar do processo da Constituinte para evitar que a nova constituição concedesse algum benefício à Igreja Católica, em sua relação com o Estado. Essa participação começa a aumentar nos anos 90, com o maior envolvimento das instituições evangélicas. Como bem pontua o sociólogo Ricardo Mariano (USP), substitui-se o slogan “evangélico não se mete com política” pelo “irmão vota em irmão”.

Nas eleições pós-2002, a presença evangélica se acentua, e hoje, a Bancada Evangélica, caso fosse um partido, seria o terceiro maior do Congresso Nacional. Evidentemente, há outras lógicas que orientam a votação de seus membros, como a partidária. Há evangélicos em diversos partidos, de matizes ideológicas distintas e interesses também diferentes. Diversos estudos indicam que a questão da legenda tem uma forte influência na forma como votam esses parlamentares. De todo modo, há temas como direitos reprodutivos, sexualidade e questões morais que unem esses deputados e sublimam quaisquer diferenças. Nesses momentos específicos, percebemos a construção de um bloco coeso preparado para barrar essas pautas no parlamento e também em comissões da Câmara.

No atual cenário político brasileiro, não há como governar sem o apoio dessa bancada. Aliás, penso que um ponto chave para a perda de sustentação de Dilma foi a ruptura com os evangélicos, que foram base de apoio do PT nos últimos doze anos. Além dessa presença maciça na política tradicional, os evangélicos também se fazem presentes na subpolítica, isto é, na organização de manifestações de rua, movimentos reivindicativos etc. Isso mobiliza milhões de pessoas. É o caso da Marcha para Jesus, ou mesmo das grandes concentrações realizadas pela juventude da Universal em grandes cidades do país contra as drogas. Dessa forma, produzem transformações também no mundo da vida, isto é, no repertório de ideias e argumentos acionados pelos cidadãos. Nesse sentido, os evangélicos constituem-se em atores políticos decisivos na democracia brasileira, com força para barrar propostas ou aprovar pautas que estejam ligadas a seus interesses.

Qual diria que é o “braço político” da Universal na política brasileira? É o PRB? Como o partido se articula politicamente hoje?

Há uma forte ligação entre o PRB e a Igreja Universal. O partido foi fundado por um pastor ligado à Igreja e diversos pesquisadores já apontaram a presença de membros da IURD na direção nacional da sigla, incluindo seu presidente, Marcos Pereira, bispo licenciado da IURD. Em meu trabalho de campo percebi uma circulação intensa de membros da Universal pelo partido e mesmo o incentivo a jovens para ingressarem nas fileiras do partido. Segundo alguns interlocutores do partido, a Igreja tenta comandar a legenda, mas há também uma parte “laica” que busca resistir a esse avanço da IURD.

No geral, os candidatos da IURD são pastores e obreiros de igrejas com grande número de fiéis. Entretanto, o PRB busca se diversificar e agregar militantes e candidatos de diversos universos sociais. Recentemente, houve até mesmo a eleição de uma travesti ao cargo de vereadora em uma cidade do interior do país, fato extremamente publicizado pelo partido em suas redes sociais, exaltando a presença de uma trans em suas fileiras.

Em 2012, nas eleições municipais para prefeito de São Paulo, o PRB justificou sua independência com relação à IURD por meio da candidatura de um católico fervoroso, o deputado Celso Russomanno. O partido apresentou um forte crescimento nas últimas eleições e hoje conta com mais de vinte deputados federais, prefeitos em diversas cidades e grande número de vereadores e deputados estaduais. Seu sucesso mais recente foi a conquista da prefeitura do Rio, com Marcelo Crivella. O partido foi o primeiro a emplacar um candidato evangélico no poder Executivo de uma grande capital brasileira.

Acredito que a principal característica do partido (e também seu sucesso) é a automonitoração de seus membros para não revelar o pertencimento à Igreja Universal em situações públicas. Há sempre um cuidado na forma de se apresentar e de ocultar o vínculo religioso, a fim de combater um possível preconceito com relação à denominação. Esse cuidado nem sempre funciona, uma vez que, em momentos de campanha eleitoral, a questão da ligação entre igreja e partido é sempre mobilizada por adversários.

Além disso, há um movimento interessante, pois ao mesmo tempo em que o partido se filia à “onda conservadora”, também se coloca como moderado, pois acolhe LGBTs em seus quadros. A compreensão da necessidade de se generalizar e incorporar diversos atores sociais para conseguir alçar voos mais altos é uma das grandes características do PRB. Trata-se do início de um fenômeno muito interessante: como siglas ligadas a evangélicos vão lidar com a homossexualidade em seus quadros e que tipo de ativismo gay alternativo podem vir a formar.

Alguns especialistas defendem que a esquerda não só abriu espaço para os evangélicos na política, como legitimou a atuação deles. Concorda com essa tese? Ainda nesse sentido, como a esquerda enxerga os evangélicos?

Concordo no sentido em que o PT teve que negociar e ceder espaços para os evangélicos a fim de conseguir governabilidade. Na primeira eleição de Lula, o Partido dos Trabalhadores não tinha uma ampla base e precisou costurar uma série de acordos com outras siglas e deputados para conseguir governar. Nisso, abriu as portas das instituições governamentais. De certa forma, acredito que boa parte da esquerda sempre enxergou e ainda enxerga os evangélicos com certa ojeriza, classificando-os como alienados e fundamentalistas. Porém, caso a esquerda queira sobreviver no Brasil, terá de dialogar com esse segmento e incorporá-lo. Isso não significa aceitar todas as suas proposições e perspectivas de mundo sem criticá-las, mas sim estabelecer uma troca comunicativa comum, recebendo e produzindo críticas de forma democrática.

Diria que os evangélicos têm um projeto político para o país ou almejam chegar a altos cargos, como os do Executivo ou do STF, por exemplo? Em que consiste esse projeto?

Todo segmento tem seu plano de poder. Não podemos esquecer que os evangélicos são extremamente plurais. Ao que tudo indica, há uma união, uma mobilização coletiva quando certos temas são levados à Assembleia Nacional, porém não podemos esquecer que há diversos conflitos entre as igrejas por conta de horário de televisão e rádio. Além disso, os evangélicos estão espalhados em diversos partidos, cada qual com seus interesses, o que inviabilizaria, ao menos no período eleitoral, a formação de uma frente evangélica à presidência. O próprio Marcelo Crivella afirmou em uma reunião que um dia os evangélicos elegerão um presidente que irá trabalhar pelas igrejas. No entanto, o cenário caótico da política brasileira pós-impeachment torna esse processo muito incerto.

A Bancada Evangélica e a reforma política

De todo modo, há uma batalha por vir, envolvendo o STF, uma vez que o ministro Gilmar Mendes afirmou estar preocupado com o uso da estrutura das igrejas para influenciar eleições, assim como de possível abuso de poder econômico. O ministro afirmou em entrevista que os membros do Supremo estão discutindo a questão para criar normas para essa relação. Logo, caso essa medida seja aprovada, assim como uma reforma política que estabeleça voto em lista fechada, a Bancada Evangélica vai sofrer um golpe muito forte, uma vez que a Câmara seria dominada por cerca de quatro ou cinco grandes partidos. Ou seja, o número de parlamentares evangélicos cairia vertiginosamente.

Por isso, muitos integrantes da Bancada Evangélica já se manifestaram contrariamente à medida. Entretanto, a crise política não terá fim sem uma reforma. Caso isso venha a ocorrer, os evangélicos terão de migrar para partidos maiores e disputar espaço internamente para conseguir figurar na lista que será apresentada por cada partido. Desse modo, a pretensão evangélica pode sofrer um grande revés.

Alguns pesquisadores têm chamado atenção para uma mudança de perfil entre os moradores das periferias, os quais têm o desejo de serem empreendedores. Há uma mudança de mentalidade em relação ao empreendedorismo no país? Que fatores têm motivado essa mudança? Ela tem relação com a presença das igrejas neopentecostais nas periferias?

Em meu trabalho abordei essa questão. Diversos moradores de periferia percebem o empreendedorismo como a solução para a melhoria de suas vidas. Bom, o empreendedor é por excelência o sujeito moderno, uma vez que a modernidade acaba com as relações de trabalho como conhecíamos. Cada vez mais temos pessoas com maior nível de educação realizando pequenos serviços e tarefas. Nesse sentido, o capitalismo contemporâneo coloca como padrão o subemprego. Horários flexíveis, sem direitos trabalhistas, sem garantias, baixas remunerações, trabalhos sazonais, às vezes somente alguns dias por semana. Muitas pessoas, em diversos países, já não se encontram na situação do trabalho formal estável, enfim, na construção de uma carreira baseada na permanência em uma empresa e na mesma função, por isso percebem o empreendedorismo como a melhor solução para suas vidas.

No caso brasileiro, observei uma grande rejeição ao trabalho formal, assalariado, associado à humilhação e exploração. Dessa forma, os evangélicos constituem uma crítica singular ao capitalismo nacional: trabalhar para os outros é ser humilhado e explorado, mas a solução não passa pela substituição do sistema econômico, e sim por uma nova posição dentro desse mesmo sistema. Acredito que haja uma relação entre o empreendedorismo e a mensagem das igrejas neopentecostais. Claro que não se trata do único motivo, há, como citei, fatores estruturais inerentes à própria modernidade. Porém, boa parte das pessoas que entrevistei afirmaram categoricamente a importância da fé no processo de construção de uma crítica à situação que viviam, na mudança da forma de pensar e de perceber a si próprio e a vida.

O nascimento dessa revolta com relação ao contexto social e a construção de um projeto de vida pautado no empreendedorismo e na construção de si como sujeito autônomo tem uma grande participação da igreja. Inúmeros fiéis relataram como passaram a se perceber como pessoas de direito após falas de pastores (“você não nasceu para ser humilhado. Não nasceu para ser pequeno. Você é grande”). Há, dessa forma, todo um incentivo à reflexão sobre a própria vida, sobre o presente e o futuro.

A partir dos debates na Igreja, o fiel repensa seu cotidiano e as possibilidades de transformação que se apresentam diante de si. Além disso, diversas igrejas contam também com cursos de empreendedorismo e reuniões para empresários. No caso da Universal, o próprio culto dos empresários é definido pelos pastores e bispos como uma palestra, onde são discutidas questões inerentes ao mercado, as competências necessárias para ser um empresário e uma boa dose de motivação. Segundo os testemunhos dessas pessoas, antes sentiam-se fracas e frágeis diante das condições objetivas em que viviam, e após o contato com a fé passaram a se sentir fortes e a não ter medo de tentar. Assim, há todo um trabalho de fortalecimento do self com relação às adversidades externas.

Quais são os desafios postos à esquerda diante da queda do sindicalismo e o aumento de pequenos empresários e autônomos?

Na atual fase do capitalismo, os sindicatos deixaram de ser um importante centro de socialização da classe trabalhadora, ou seja, deixa de ser uma instituição com participação importante na formação das pessoas como foi no século XIX e em parte do século XX. Os índices de produtividade aumentaram vertiginosamente, causando grandes ondas de desemprego, ao mesmo tempo em que o capitalismo institui o subemprego como atividade padrão da maior parte da população. Aliado a tudo isso, o processo de individualização se acentuou e hoje cada um é responsável pela construção de sua trajetória. Nesse aspecto, não faz mais sentido a noção de classe. Ela não opera mais, pois foi destradicionalizada. Ela não mobiliza mais e tampouco é responsável pela socialização dos indivíduos, como foi outrora. Porém, o nível de desigualdade socioeconômica nunca foi tão alto.

Eis o grande desafio da esquerda: como mobilizar e propor mudanças em um capitalismo pós-classes cada vez mais desigual e destrutivo? Evidentemente que usamos o termo classe para nos referir a uma determinada camada social, porém as próprias pessoas não se identificam mais com tal conceito. A maior parte define-se como pertencente a uma genérica “classe média”, ou “pobre”. Nesse cenário de subemprego, alta rotatividade, serviços ocasionais, o desemprego passa a ser também uma condição normal. Todos nós, em algum momento, estaremos desempregados, dado às flexibilizações no direito do trabalho e na jornada horária, utilização da tecnologia, aumento de produtividade constante. A estabilidade existente na fase anterior do capitalismo, com possibilidade de carreira, praticamente não existe mais e, em muitos casos, somos obrigados a mudar de função para sobreviver.

A obtenção de um diploma de nível superior não é mais garantia de trabalho, mas apenas de acesso à competição para um subemprego. Os riscos para os trabalhadores aumentam cada vez mais, uma vez que o trabalho passa a ser descentralizado de um único local de produção, como as antigas fábricas, tornando a fiscalização das condições uma tarefa quase impossível. Nesse contexto, o empreendedorismo, para muitas pessoas, acaba sendo a saída mais efetiva para conseguir uma vida melhor. Talvez possamos olhar e dizer “ah, mas ele continua pobre”. Porém, para quem ganhava mil, enfrentava jornadas duras em situações pavorosas e passa a ser o próprio patrão e ganhar 1800, 2000, há uma grande diferença.

Uma das principais referências de meu trabalho é a socióloga inglesa Margaret Archer, que tem uma metáfora muito boa para explicar como a estrutura social é percebida de muitas formas. A fórmula da água é H2O (duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio), porém, ao nos molharmos, não temos contato direto com essa representação científica, mas sim com a água do chuveiro, da piscina, da chuva. Ou seja, uma mesma estrutura pode ser vivenciada de inúmeras formas diferentes, e, para uma boa parte da população, a desigualdade social é percebida no trabalho assalariado e a ascensão é pautada no empreendedorismo. Aquele agente social ao avaliar sua vida e projetar um futuro como empreendedor considera esse plano como o único possível para obter uma melhoria imediata e significativa em sua vida. É pragmático.

O desafio para a esquerda é entender essa trama complexa da modernidade, a crescente pluralização dos processos de formação social e individualização e encontrar um princípio comum capaz de mobilizar esse setor mais amplo da sociedade. O filósofo alemão Peter Sloterdijk afirma que os empreendedores são a nova social-democracia, pois, como setor produtivo, são a base real da sociedade de mercado e não os grandes capitalistas que promovem a jogatina financeira. O argumento tem sua lógica. Não acho que seja unicamente eleger o empreendedorismo como “salvador da pátria”, mas perceber como a própria classe trabalhadora vem se constituindo progressivamente em classe empreendedora, transformando suas demandas. Isso não significa que essas pessoas defendam necessariamente pontos de vista considerados liberais. A maior parte é favorável a serviços mantidos pelo Estado, como saúde e educação, mas percebem a força individual como forma de mudança de vida.

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Redação

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